Viagem de Cinema: "Na Estrada" (2012)

Cenas do filme "Na Estrada" (2012), de Walter Salles
"Na Estrada" (2012), filme inspirado no romance de Jack Kerouac (créditos: American Zoetrope).

“Estou com um outro romance na cabeça, On the Road, no qual não paro de pensar, que falará sobre dois caras que viajam de carona até a Califórnia à procura de alguma coisa que, na verdade, não encontram, que se perdem no caminho e que retornam para o lugar de onde haviam partido, à procura de alguma outra coisa.” (Jack Kerouac, 23/08/1948)

Os dois caras a quem o escritor Jack Kerouac se referiu na frase acima eram Sal Paradise, seu alter-ego, e Dean Moriarty, personagem inspirado em seu amigo, Neal Cassady. Essa história foi imortalizada no romance On the Road (1957).

Contextualizando, Jack Kerouac e Neal Cassady foram ícones do grupo que originou a chamada Geração Beat, movimento contra-cultural que ganhou força e popularidade nas décadas de 1940 e 1950. Esse grupo era composto por jovens entre 17 e 20 e poucos anos, que se recusavam a trabalhar em algo fixo e perambulavam pelos Estados Unidos em busca de prazer e diversão. Os seus dias eram regados a jazz, sexo, drogas e muita vagabundagem, como dizia o próprio Kerouac. Outros membros também incorporados à história de On the Road foram William S. Burroughs e Allen Ginsberg, só para citar os mais conhecidos do público.

Conhecendo a turma de On the Road | Na Estrada:

O romance On the Road foi adaptado para o cinema — Na Estrada (2012) — e dirigido por Walter Salles a convite do “poderoso chefão” e produtor executivo Francis Ford Coppola. Nele, Sal Paradise (Sam Riley) é um jovem escritor de 23 anos, aparentemente ponderado, que perdeu o pai e mora com uma tia em Nova Jersey. Dean Moriarty (Garrett Hedlund), por outro lado, tem personalidade forte e vibrante, é carismático, excêntrico e ansioso por aventuras, estrada, drogas e mulheres, em qualquer ordem. 

Quando se conhecem, a admiração é mútua. Sal fica fascinado pelo espírito livre do novo amigo, que vive as mais loucas aventuras e trabalha em qualquer coisa sem importância, somente para manter-se na estrada, e Dean admira o talento literário e equilíbrio de Sal, e vai com a cara dele desde o momento em que se conheceram, apresentados pelo amigo em comum, o poeta Carlo Marx (Tom Sturridge), inspirado em Allen Ginsberg. Completando o grupo inicial da história está a It girl Marylou (Kristen Stewart), a primeira esposa de Dean, por quem Sal se sentiu atraído e com quem manteve um relacionamento amoroso aprovado por Moriarty. 

Não demora para Dean, Sal e Marylou (com eles, na maior parte das vezes) pegarem a estrada juntos. Primeiro, eles vão a Louisiana, fazer uma visita ao mentor e amigo de Sal, Old Bull Lee (Viggo Mortensen), personagem inspirado em Williams S. Burroughs. Depois, eles seguem para distâncias mais longas, que os levam até São Francisco.

Na Estrada: viagens e lugares da vida e da ficção

As viagens de Jack Kerouac foram iniciadas quando ele tinha 25 anos de idade, durante o verão de 1947. Ele passou por Washington, New Orleans, Los Angeles, São Francisco, Chicago, Des Moines, Denver e Desolation Peak. O escritor atravessou os Estados Unidos quatro vezes, percorrendo uma distância de 8.500 km. 

Inspirado em suas andanças, Kerouac colocou a trupe de On The Road para sair de Nova York rumo a Phoenix, Los Angeles, Big Sur, São Francisco, Denver, Des Moines e Chicago. Para dar vida a essas viagens, Walter Salles rodou cenas em Montreal (as de Nova York e seus clubes de jazz e da noite de réveillon, seguida pela do carro quebrado em busca de uma bomba de gasolina), além de New Orleans, Phoenix, São Francisco e Denver. O diretor também filmou na Cidade do México e na Patagônia Argentina (em busca da neve perfeita e onde ele já havia filmado Diários de Motocicleta). 

Lugares da Geração Beat em Nova York e São Francisco

Lugares de São Francisco relacionados com a Geração Beat
Lugares em São Francisco relacionados com a Geração Beat (fotos: Fran Mateus) e foto em preto-e-branco de Neal Cassady (camiseta branca) e Allen Ginsberg (camisa preta), com amigos, na frente da City Lights (crédito: Peter Orlovsky, 1956).

Quem quiser se aprofundar no universo Beat, ou somente matar a curiosidade, pode incluir alguns pontos de Nova York e de São Francisco em uma futura visita.

Em Nova York, a dica é visitar Greenwich Village, bairro onde Kerouac viveu por um tempo e lugar que se tornou o berço da Geração Beat, e a New York Public Library (Quinta Avenida com a Rua 42), onde é possível conhecer parte dos arquivos pessoais de Jack Kerouac, mantidos na Coleção Berg

Em São Francisco, os pontos obrigatórios da turma Beat são a livraria City Lights, o Vesuvio Cafe e o Beat Museum, todos próximos um do outro e exibidos nas fotos acima.

A City Lights foi fundada em 1953 como livraria e editora. Ela foi a primeira a publicar livros dos representantes da Geração Beat, como Uivo e Outros Poemas (Howl and Other Poems, 1956), de Allen Ginsberg. Em seu espaço, nos anos de 1955 a 1957, Kerouac, Cassady, Ginsberg e Burroughs liam e discutiam poesias, enquanto apreciavam bons vinhos até altas horas. A trupe também usava o local para dormir — nos quartos do andar superior — e receber correspondência (261 Columbus Avenue, bairro de North Beach). 

Separado da City Lights apenas pelo beco Jack Kerouac está o Vesuvio Cafe, um bar datado de 1948, onde a turma Beat e o dono da livraria, Lawrence Ferlinghetti, bebiam e se divertiam até altas horas (255 Columbus Avenue).

Próximo do café e da livraria encontra-se o Beat Museum, um espaço concebido por Jerry Cimino, em 2003, que funciona como uma espécie de templo para os fãs de Kerouac e Companhia. Lá podem ser apreciados diversos pertences dos representantes do movimento beatnik (confira as fotos acima), entre as quais as primeiras edições dos livros dos escritores e a máquina de escrever de Jack Kerouac, além do carro Hudson, pilotado pelos atores do filme de Walter Salles (540 Broadway).

Na Estrada: Curiosidades

“A verdadeira viagem de descoberta não consiste na busca de novas paisagens, mas em um novo olhar.”

No filme Na Estrada, você vai ver o livro O caminho de Swan, de Marcel Proust, nas mãos dos personagens viajantes. Isso acontece porque Jack Kerouac concebeu o seu On The Road como uma espécie de Em Busca do Tempo Perdido (1913), em termos de crítica à sociedade em que estava inserido (Proust critica a sociedade francesa do seu tempo; Kerouac, a americana), porém com mais velocidade narrativa. 

O filme tem 2 horas e 4 minutos de duração. Não dei muitos detalhes sobre o que acontece nele porque acho bem interessante que o espectador possa descobrir, cena a cena, como funciona o triângulo vivido entre Sal, Marylou e Dean e como foi o deslocamento deles pelos Estados Unidos e México. Essa é uma experiência bacana para quem ainda não leu o romance de Kerouac antes de ver o filme, que foi o meu caso. Eu comecei a ler o romance somente hoje, 13 anos depois do lançamento de Na Estrada nos cinemas. Se eu descobrir algo no livro muito diferente do que foi mostrado no filme e que mereça ser adicionado a este post, farei isso posteriormente. Até lá, assista ao filme. Ele, por si só, já é uma aventura eletrizante e reflexiva!

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