"Cidadão Kane" (1941) e o Hearst Castle

Pôster e cenas das várias fases do "Cidadão Kane"
Pôster e cenas das várias fases do "Cidadão Kane" de Orson Welles (Divulgação).

Cidadão Kane: O filme de Orson Welles

O filme Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941, direção de Orson Welles) mostra a trajetória pessoal e profissional do maior magnata (fictício) da comunicação americana dos anos 1920 - 1940: o dono do Jornal Inquirer, Charles Foster Kane.

O filme começa pelo final da história: a morte de Kane e sua última palavra dita, "Rosebud". 

Diante da importância daquele cidadão, a imprensa da época tentou descobrir o que aquela palavra significava para ele, designando o jornalista Jerry Thompson (William Alland) para entrevistar pessoas que conheceram o magnata e esmiuçar todos os registros relacionados com a vida daquele homem.

À medida que Jerry Thompson avança em suas pesquisas, nós, espectadores, somos apresentados à vida de Kane, desde à sua infância até o seu último suspiro.

Basicamente, Kane ganhou uma grande fortuna quando ainda criança (interpretado pelo pequeno Buddy Swan) e foi entregue aos cuidados do seu advogado, gestor dos bens e tutor, Thatcher (George Coulouris), para ser educado apropriadamente. A mãe temia que, por causa da falta de educação formal dos pais, o menino não fosse bem preparado para o mundo. No entanto, Kane se tornou um jovem voluntarioso e orgulhoso (com interpretação de Orson Welles), pensando sempre em si mesmo e acreditando que o dinheiro podia comprar tudo o que quisesse.

Quando decidiu fazer alguma coisa da vida, Charles Foster Kane criou o jornal Inquirer, ao lado do seu melhor amigo, Jedediah (Joseph Cotten), e contratou os melhores profissionais da sua época para tornar o seu empreendimento num sucesso de vendas. Ele casou-se com a sobrinha do presidente americano e tentou a carreira política, sem êxito. Quando sua esposa e filho faleceram num acidente de carro, o homem casou-se novamente, desta vez com uma cantora medíocre, mas que ele amava.

Tempos depois, Kane construiu um castelo para si na Flórida, o qual chamou de Xanadu. Ali ele montou uma das maiores coleções de arte de que o mundo teve notícia, além de um zoológico com animais oriundos de todos os continentes.

À essa altura da vida e, praticamente, sem amigos, Kane se isolou em Xanadu, tendo como companhia apenas a sua esposa. Essa, afastada do convívio social e cansada do egoísmo do marido, o abandonou.

O magnata terminou seus dias em Xanadu, solitário e infeliz e, ao que tudo indica, sentindo saudades do que chamou de Rosebud.

Apesar de seguir todas as pegadas deixadas por Kane, o jornalista Thompson não conseguiu descobrir o significado de Rosebud. Mas o espectador, esse sim, foi brindado, ao final do filme, com o significado daquela palavra.

Cidadãos Kane, Welles e Hearst

O dilema de Cidadão Kane

Considerado um dos melhores filmes tecnicamente já realizados, Cidadão Kane foi a obra-prima de Orson Welles e, ao mesmo tempo, a sua desgraça. Como o filme foi, supostamente, baseado na vida do magnata da comunicação da época, William Randolph Hearst (1863-1951), este, ao saber que teria a sua vida exposta nas telas de cinema, iniciou uma batalha descomunal contra Welles e a RKO Studios para evitar que a produção fosse apresentada ao público.

Entre as iniciativas do magnata da vida real estiveram o boicote às notícias sobre Cidadão Kane em jornais da época e a pressão sobre as redes de cinemas para não exibirem o filme. Tais medidas causaram prejuízos financeiros imensos à RKO e à imagem de Welles, que teve problemas para realizar seus trabalhos futuros. No entanto, o tempo (e a morte do magnata) trataram de colocar a bela produção no pedestal onde ela deveria estar desde o seu lançamento.

Cidadão Kane foi indicado a 9 Oscars, vencendo o de Melhor Roteiro Original.

Sobre William Randolph Hearst

Entre o final do século 19 e o início do século 20, William Randolph Hearst revolucionou a publicação de jornais dos Estados Unidos. Amante do sensacionalismo, ele conhecia o poder de detalhes mórbidos, de fotografias, de desenhos e da manipulação. 

Tornou-se lendária a história de seu contratado Frederic Remington, que chegou em Cuba, em 1897, para cobrir uma possível guerra entre Espanha e EUA. O ilustrador e fotógrafo viu que não havia nenhuma guerra a ser coberta e pediu permissão para voltar para os EUA. A resposta de Hearst foi algo como: “Arranje as imagens, que eu arranjo a guerra”.

Sobre Orson Welles

Orson Welles forjou sua carreira baseada em polêmicas. Aos 20 anos, brilhou no teatro, montando a peça Macbeth, de William Shakespeare, no bairro do Harlem, somente com atores negros e novatos na arte da dramaturgia. Uma ousadia para a época!

Aos 23 anos, o homem dominou o rádio ao narrar, para desespero dos norte-americanos desavisados, A guerra dos mundos, de autoria de H. G. Wells, como se fosse um acontecimento real (Esta narração também é ouvida no filme A Era do Rádiode Woody Allen). 

Aos 24 anos, Welles já estava trabalhando no cinema e sendo considerado o jovem mais poderoso de Hollywood. Cidadão Kane foi o seu trabalho de estreia.

Ao que parece, para Orson Welles, somente o céu era o limite. Todavia, apesar de brilhante e prodígio, a batalha perdida para Hearst e a insistência em desafiar o status quo fez com que o talentoso diretor sofresse as consequências dos seus atos durante toda a sua vida profissional.

Orson Welles no Rio de Janeiro

Uma curiosidade para os brasileiros. 

Em 1942, durante a II Guerra Mundial, Orson Welles esteve no Rio de Janeiro a serviço do governo americano (através da RKO) na ação chamada de “Política da Boa Vizinhança” entre Estados Unidos e Brasil. Ele hospedou-se no Copacabana Palace, divertiu-se no Cassino da Urca e filmou cenas do seu documentário É Tudo Verdade na Cidade Maravilhosa. 

É Tudo Verdade foi mais um trabalho controverso do famoso diretor, pois o que deveria ser um filme sobre o samba brasileiro foi transformado na luta social de alguns pescadores cearenses contra o governo nacional. Este filme foi arquivado pela RKO Pictures, esquecido e, parcialmente, recuperado na década de 1990, quando foi restaurado e lançado, em 1993, por amigos do - já falecido - diretor de cinema.

Cidadão Kane: Xanadu e Hearst Castle

Hearst Castle, em San Simeon, inspiração para "Cidadão Kane"
O Hearst Castle durante a minha visita: a Casa Grande na foto maior, o Visitor's Center, na entrada da propriedade; a Roman Pool, dentro dela; e o mar do Pacífico visto dos jardins do castelo (Fotos: Fran Mateus).

No filme Cidadão Kane, o palácio residencial do magnata foi chamado de Xanadu. Este, por sua vez, foi inspirado no Hearst Castle, propriedade de William Randolph Hearst, que apelidou o seu castelo de 'O Rancho'.

Xanadu Castle

De acordo com o site IMDb, os lugares usados como locações para o palácio de Xanadu encontram-se em cidades da Califórnia e de Nova York. 

Entre as locações na Costa Oeste estão o antigo Busch Gardens e o Arroyo Boulevard, em Pasadena; e o Balboa Park e o San Diego Zoo, em San Diego; e na Costa Leste, o Oheka Castle, em Long Island (que aceita hóspedes).

Hearst Castle

O Hearst Castle está localizado na encosta de uma montanha de San Simeon, na Califórnia. De estilo mediterrâneo, a Casa Grande do castelo (na foto maior, acima) é considerada como uma das construções mais belas que existe, com detalhes arquitetônicos inspirados tanto no Mediterrâneo como em catedrais espanholas.

Os maravilhosos jardins que ornamentam os arredores do castelo — chamados de Esplanade (foto menor, à direita, acima) — dão vista para o mar do Pacífico e foram inspirados nos jardins europeus, especialmente, os italianos e os espanhóis.

O castelo possui uma piscina coberta, a Roman Pool (foto menor, no meio, acima), cujo piso, paredes e teto foram feitos de mosaicos de ouro e pastilhas azuis oriundas de Veneza. Um verdadeiro charme!

A piscina aberta se chama Netuno e possui uma fachada inspirada nos templos gregos. Ao seu redor, a decoração é composta por várias das obras de arte que Hearst adquiriu em suas diversas viagens pelo mundo.

Localizada no caminho entre Los Angeles e San Francisco, a cidade de San Simeon, com o seu Hearst Castle, foi considerada um ponto de encontro de atores e diretores da Era de Ouro de Hollywood, como Clark Gable e Charlie Chaplin. Reza a lenda que Hearst transformou o local em um castelo, mas foi a atriz Marion Davies, sua amante e grande paixão, que levou os astros e estrelas do cinema para lá.

Minha visita ao castelo de Hearst

Depois de assistir Cidadão Kane algumas vezes e de ver um documentário de viagem sobre o Hearst Castle, local que inspirou o castelo fictício de Xanadu, eu fui, finalmente, conhecer os domínios do magnata William Randolph Hearst. 

Naturalmente, eu fiquei fascinada por tudo ali: pela Casa Grande, com sua decoração exuberante; pelas belas piscinas interna e externa; pelos muito bem cuidados jardins e a vista do mar que se tem dali; e, particularmente, pelas Cottages, três belas casas onde os hóspedes de Hearst dormiam. É tudo muito belo, florido e grandioso!

Sobre as piscinas, a Roman Pool é a única que ainda tem água. Como a Califórnia sofre com a seca, a piscina externa (que precisa que a água seja trocada muitas vezes) não é mais abastecida. Na época de Hearst, isso parecia não ser um problema.

Toda a frente do castelo dá vista para o Pacífico. Eu tive a sorte de o dia estar bonito e ensolarado durante o meu passeio, o que me permitiu apreciar a mesma paisagem que Hearst, certamente, tinha quando morava no local.

Sobre o passeio, eu fiz parte de um tour de ônibus que saiu de San Francisco. Chegando em San Simeon, nós fomos recebidos no Visitor 's Center (foto menor, à esquerda, acima), onde a agência que organizou o passeio comprou os nossos tickets de entrada. Dali, ônibus do castelo nos levaram para o topo da montanha.

Guias especializados nos apresentaram o interior da luxuosa mansão (é possível ter uma ideia de como ela é através do site do castelo). Depois, nós passeamos, à vontade (limitado até às 18 horas), pelos jardins, onde vimos a piscina externa e a quadra de tênis (exibida em Zelig e onde Charles Chaplin jogou algumas vezes).

Passear pela propriedade de Hearst me fez imaginar como teria sido a vida do magnata naquele local tão agradável e especular o que o filme de Orson Welles conseguiu captar de real e o que foi somente ficção.

Como achei essa visita inesquecível, daquelas que nos fazem querer repetir em outro momento da vida, minha conclusão foi simplesmente: "Quero voltar!". Pretendo fazer isso um dia 😉.

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