Nas pegadas de "A Lebre com Olhos de Âmbar"

 

Capa de A lebre com olhos de âmbar (2010, Intrínseca) e a tela Rosa e Azul (1881), de Pierre-Auguste Renoir.

Hoje, eu finalizei a releitura de uma viagem nostálgica, familiar e histórica, em que acompanhei o ceramista e escritor Edmund De Waal num tour por OdessaParisVienaTóquio e Londres, através do seu livro A Lebre com Olhos de Âmbar (The Hare with Amber Eyes, 2010). 

Filho de mãe austríaca, pai holandês e pertencente a uma família de judeus banqueiros, De Waal herdou uma coleção composta por 264 netsuke de seu tio-avô, Ignace Ephrussi, e decidiu conhecer a história daquelas pequenas obras de arte japonesas, que atravessaram gerações na sua família e, agora, estavam em suas mãos. A principal questão era saber pelas mãos de quem e por onde passaram todos aqueles minúsculos objetos até chegarem — intactos — à sua casa, na Inglaterra do século XXI?

Para tal empreitada, Edmund fez uma visita à história dos seus antepassados, a partir do ano de 1850, com início em Odessa, na Ucrânia. Ele seguiu os passos do patriarca do clã, Charles Joachim Ephrussi, e de seus descendentes; esses espalhados pela Europa. 

Com o destino dos netsuke em mente, De Waal apresenta ao leitor um ponto de vista novo sobre como viviam os judeus antes e durante as duas grandes guerras mundiais, e o que aconteceu com as fortunas dos que sobreviveram aos campos de concentração tão logo a triste Era dos extermínios foi encerrada. 

A lebre com olhos de âmbar é História com H maiúsculo!

Países para onde os netsuke — e a lebre — foram levados

Os netsuke conseguiram permanecer intactos durante todos os anos atribulados pelos quais os membros da família Ephrussi passaram, atravessando, entre idas e vindas, as fronteiras de 4 países: França, Áustria, Japão e Inglaterra.

França

A coleção japonesa foi iniciada no ano de 1871 por Charles Ephrussi (neto do primeiro Charles) e primo de Viktor Ephrussi, bisavô de Edmund. Charles era um afortunado habitante do Hôtel Ephrussi, no número 81 da rue de Monceau, em Paris (Metrô Villiers). Na ocasião, colecionar relíquias japonesas era considerado de bom gosto entre a sociedade francesa.

Áustria

Em 1899, Charles resolve dar as suas pequenas obras de arte como presente de casamento para Viktor, residente do Palais Ephrussi, localizado no número 14 da Universitätsring com a Schottengasse, em Viena (Metrô Schottentor). Ali a coleção permanece até o ano de 1938, quando Elizabeth, avó de Edmund, recebe-os de Anna, uma antiga criada de sua mãe. Elizabeth leva os pequeninos objetos para a Inglaterra e os entrega aos cuidados do seu irmão Ignace.

Nota: Anna era austríaca mas, como era apegada à família Ephrussi, ela conseguiu esconder — netsuke por netsuke — dos olhares dos nazistas que ocuparam a residência dos seus antigos patrões judeus.

Japão

Ignace Ephrussi leva os netsuke de volta para o Japão no ano de 1947. Ali as peças permanecem até 2009, quando o homem falece e deixa as preciosidades aos cuidados de Edmund.

Inglaterra

Atualmente, as aventureiras miniaturas artesanais encontram-se com Edmund De Waal, em Londres, na Inglaterra. Depois de 2 anos perambulando pela Europa e Ásia, pesquisando o passado tanto de sua valiosa coleção como de sua família, o escritor voltou ao convívio de sua esposa e seus três filhos e ao seu trabalho como ceramista. Um dia, um dos seus garotos herdará os netsuke e dará continuidade a essa emocionante história familiar.

A lebre com olhos de âmbar e a tela Rosa e Azul, de Renoir

Numa das passagens do seu livro, Edmund De Waal fica indignado com o fato dos 264 netsuke — belos, mas inanimados — ficarem ilesos durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto seres humanos — como Elisabeth Cahen d'Anvers, uma das meninas retratadas pelo pintor Pierre-Auguste Renoir — não tiveram a mesma sorte. 

Quando crianças, as irmãs Alice (5 anos de idade e vestida de rosa) e Elisabeth (6 anos e vestida de azul) foram retratadas pelo célebre pintor Renoir, a pedido do pai das garotas, o banqueiro judeu Louis Raphael Cahen d'Anviers. A pintura foi feita na mansão em que as meninas moravam, no 66 da Avenue Montaigne, em Paris. Acontece que a família não gostou do resultado da obra de arte, intitulada Rosa e Azul (1881), e a colocou num local menos nobre da casa (talvez por seu estilo Impressionista, que era novo e dividia opiniões, numa época acostumada com o Realismo das imagens).

O destino trágico de Elisabeth, morta aos 69 anos, a caminho de um campo de concentração nazista, fez o mundo enxergar a tela de Renoir com outros olhos. Tal como aconteceu com Edmund de Waal, com olhos de tristeza e indignação pelo destino de Elisabeth. Graças a Deus, a irmã mais nova, Alice, conseguiu viver até os seus 89 anos de idade.

Desde 1952, a tela de Renoir faz parte da coleção permanente do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Confesso que, depois de conhecer a história das irmãs Cahen d'Anvers através do livro de Waal, toda vez que vou ao museu, eu dou uma olhada naquelas duas meninas inocentes, posando para Renoir, sem terem ideia do que o destino reservava para elas. O meu sentimento é um misto de contentamento por ver que elas viveram bem enquanto puderam e de tristeza por saber o que estava para acontecer com uma delas (e com muitas outras vítimas da mesma tragédia; até hoje, eu não consigo rever o filme A Lista de Schindler).

Resumindo

Voltando ao livro, em A lebre com olhos de âmbar, o famoso ceramista Edmund de Waal segue as pegadas de uma coleção de 264 — minúsculos, mas valiosos — netsuke, através de cidades como Paris, Odessa, Viena, Tóquio e Londres, e nos conta a emocionante (e, em certos momentos, trágica) história tanto dos objetos herdados como de sua própria família (o autor dá destaque, também, para a história das meninas Cahen d'Anvers).

Este é um daqueles livros que ficam na nossa mente por tanto tempo depois de lido, que nos faz querer fazer uma releitura dele, só para nos emocionarmos de novo. Sua leitura é imperdível!

Comentários

CONFIRA TAMBÉM:

"Ladrão de Casaca" (1955) na Riviera Francesa

Woody Allen na Europa: "Meia-Noite em Paris" (2011)

Os lugares da Cidade Luz em "Paris, Eu Te Amo" (2006)

Celebrando Bill Bryson e seus livros de viagens 🎂🎈!

Viagem de Cinema: "Central do Brasil" (1998)

Cafés de Lisboa: literários e charmosos

Lugares dos filmes de Woody Allen que fecharam as portas

Viagem de Cinema: "Diários de Motocicleta" (2004)

Woody Allen e seus 7 melhores filmes