Celebrando a vida e o legado de Ernest Hemingway

Ernest Hemingway em 3 momentos da vida
Ernest Hemingway em três versões: jovem, maduro e idoso (JFK Library).

Julho é um mês importante na história do escritor estadunidense Ernest Hemingway, considerado um dos grandes nomes da Literatura americana e mundial. Hoje, dia 21, terão se passado 127 anos desde o seu nascimento na cidade de Oak Park, no Estado do Illinois.

Fã de sua obra e do estilo de sua escrita, dedicarei este post comemorativo para falar sobre os principais acontecimentos da vida deste homem de personalidade forte, que viveu intensamente até o dia em que decidiu pôr um fim na festa.

Vida, obra, cidades e mulheres de Ernest Hemingway

Momentos da vida de Hemingway: dos primeiros dias em Oak Park aos últimos anos em Ketchum.
Momentos da vida de Hemingway: dos primeiros dias em Oak Park aos últimos anos em Ketchum (JFK Library).

Nascimento e infância em Oak Park

Ernest Miller Hemingway nasceu no dia 21 de julho de 1899, em Oak Park, Illinois, Estados Unidos. Ele era filho do médico Clarence Edmonds Hemingway e da cantora e musicista Grace Hall Hemingway.

Quando menino, Hemingway visitou a região de Walloon Lake com o pai e aprendeu a arte da pescaria com os nativos daquela região. Parte de suas experiências com as pescarias foi transmitida ao personagem Nick Adams, do conto "O Grande Rio de Dois Corações - Partes I e II" (Big Two-Hearted River, 1925).

Participando da I Guerra Mundial na Itália

Contra a vontade da família, Hemingway alistou-se naquela que ficou conhecida como “A Grande Guerra”. A sua missão no front italiano de Piave era dirigir uma ambulância, distribuir cafés e chocolates e transportar feridos.

Um dia, em julho de 1918, ele foi atingido por estilhaços de uma bomba e, por conta dos ferimentos, precisou ficar hospitalizado por três meses no Hospital da Cruz Vermelha Americana localizado em Milão. A partir de então, a visão sonhadora, aventureira e inconsequente do mundo havia sido alterada para aquele soldado americano.

A sua experiência nos campos de batalhas e em Milão foi a base para o seu segundo romance "Adeus às armas" (1929).

👀Sobre este período na vida de Hemingway, confira o post Nas pegadas de Ernest Hemingway por Milão.

Com Hardley Richardson em Paris (1921-1927)

Hemingway retorna para os Estados Unidos, casa-se com Elizabeth Hadley Richardson e, em dezembro de 2021, a serviço do jornal Toronto Star, muda-se com ela para Paris.

Hadley e a capital francesa foram imortalizadas pelo escritor em seu grande sucesso autobiográfico, "Paris é uma festa" (publicado, postumamente, em 1964).

Na cidade-luz, Hemingway travou amizade com Gertrude Stein, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound e muitos outros nomes que integraram aquela que ficou conhecida como “A Geração Perdida”.

Enquanto trabalhava para o jornal canadense, Hemingway passou a investir na escrita de uma série de contos sobre caçadas, horrores da guerra e as touradas espanholas, que foram publicados com o título “Nosso tempo”, em 1924.

Interessado em investir em período integral na sua carreira como escritor, Hemingway afastou-se do Toronto Star e começou a trabalhar no seu primeiro romance: "O sol também se levanta". Ambientada no eixo Paris-Pamplona, essa história trata da vida e problemas de alguns expatriados americanos e ingleses, que se encontram na cidade espanhola para assistir às touradas durante a Fiesta

Para início de carreira, o homem fez um sucesso tremendo, com o seu primeiro romance projetando-o comercialmente nos Estados Unidos.

Em 1927, Hemingway publicou a coletânea de contos "Homens sem mulheres" (Men without women), incluindo uma de suas histórias mais interessantes, "Colinas como elefantes brancos" (Hills Like White Elephants).

👀Uma parte da história dessa fase da vida de Hemingway pode ser conferida no filme Meia-Noite em Paris (2011), de Woody Allen.

Com Pauline Pfeiffer em Kew West (1928-1939)

Hemingway conheceu sua segunda esposa, Pauline Pfeiffer, ainda em Paris. A sofisticada jornalista de moda da revista Vogue tornou-se amiga de Hardley, aproximou-se da família e acabou sendo o pivô da separação dos dois.

Em 1928, o escritor foi morar com sua nova senhora na pequena e charmosa Key West, localizada no extremo sul da Flórida, onde permaneceram por nove anos e tiveram dois filhos.

Naquela ilha, Hemingway escreveu o seu grande sucesso "Adeus às armas", romance inspirado em sua história nos campos de batalhas italianos e em seu romance com a enfermeira Agnes von Kurowsky. Ali também ele publicou "Morte na tarde" (1932) e "Ter e não ter" (1937), além de uma série de contos maravilhosos como "Um lugar limpo e bem iluminado" (1933) e "As neves do Kilimanjaro" (1936).

Seu casamento com Pauline começou a declinar a partir do momento em que o escritor decidiu atravessar o Atlântico para cobrir a Guerra Civil Espanhola (1936 - 1939) e se envolver com a também jornalista de guerra, Martha Gellhorn.

Hoje, a antiga residência dos Hemingways funciona como um museu, o Ernest Hemingway Home & Museum. Para ver este museu na tela, assista Ella e John (2017), filme em que os personagens de Helen Mirren e Donald Sutherland visitam o local e, de bônus, ainda passam na frente do Sloppy Joe's, o bar preferido do escritor por aquelas bandas.

Com Martha Gellhorn e Mary Welsh em Havana (1939-1960)

Homem de ação, Ernest Hemingway usou a sua experiência in loco sobre a Guerra Civil Espanhola para homenagear os amigos vencidos através do romance "Por quem os sinos dobram" (1940), um sucesso de vendas.

Separado de Pauline, o homem muda-se para Havana em busca de distância dos holofotes americanos e umas boas pescarias.

Em 1940, ele comprou uma casa no local, a Finca Vigía, onde morou com sua terceira esposa, Martha Gellhorn, até 1945.

Casado novamente, desta vez com Mary Welsh, Hemingway permaneceu em sua residência cubana até 25 de julho de 1960. 

Em Finca Vigía, Hemingway escreveu "O velho e o mar" (1952), livro que se tornou o mais famoso da sua carreira e lhe rendeu o Prêmio Pulitzer de Ficção, em 1953, e o Prêmio Nobel de Literatura, em 1954.

Os anos se passaram e o escritor, apesar da saúde se deteriorando a cada dia, ainda conseguiu escrever outros romances, como "Do outro lado do rio, entre as árvores" (1950), ambientado em Veneza; "O verão perigoso" (1960), livro sobre o seu tour seguindo as apresentações das touradas espanholas de 1959; e "Paris é uma festa", seu livro de memórias sobre os anos em que era pobre, mas feliz, na capital francesa. Desnecessário, mas vou dizer assim mesmo 😉, que após a leitura de cada um desses livros, a gente fica com muita vontade de visitar os lugares que marcaram a vida de Hemingway.

👀A primeira fase da vida do escritor em Havana é apresentada na minissérie Hemingway & Martha (2012), com Clive Owen e Nicole Kidman no papel do casal famoso.

Os últimos dias em Ketchum, Idaho (1960 - 1961)

Em 1960, o escritor precisou tratar de sua saúde nos Estados Unidos e não conseguiu voltar mais para a sua querida Cuba, que se encontrava em conflito com a terra do Tio Sam.

Tanto o quadro depressivo que o escritor apresentava há alguns anos como as dores pelo corpo se agravaram e, certamente, contribuiram para Hemingway disparar um fuzil de caça contra si mesmo, em sua casa americana, no dia 2 de julho de 1961. Ele estava prestes a completar 62 anos de idade, mas decidiu que já era hora de partir, deixando Mary e os fãs em luto e a Fiesta daquele ano um tanto triste. 

Foi Mary quem editou, postumamente, o último romance de Hemingway, Ilhas da Corrente (1970). Ela também doou parte do acervo do marido para a biblioteca do museu JFK, em Boston, onde os fãs têm a oportunidade de matar a saudade do Papa da Literatura sempre que puderem fazer isso.

Nas pegadas de Hemingway

Fran Mateus celebra Hemingway em livros e viagens
Celebrando Ernest Hemingway: na casa dele da Cardinal Lemoine, em Paris; meus livros dele e sobre ele; com sua estátua, no Café Iruña; em sua casa de Key West (Fran Mateus).

Num café com Hemingway, de Fran Mateus

Fã de carteirinha de Ernest Hemingway, eu fiz questão de visitar os lugares da vida dele em Key West, Paris, Milão e Pamplona, viagens essas que geraram posts para este blog e um guia de viagem intitulado Num café com Hemingway com as três cidades europeias (2021, Cinetour Publishing).

Antes e durante essas viagens, li a biografia Hemingway, de autoria de Kenneth S. Lynn (Harvard, 1987). Este ano, ainda pretendo ler Ernest Hemingway, outro livro extenso sobre a vida dele, escrito por Mary D. Dearborn (Alfred A. Knopf, 2017), para ter um ponto de vista feminino sobre a história do escritor.

Sobre o legado literário de Hemingway, eu adoro reler O sol também se levanta (desde que vi o filme de 1957, não consigo deixar de associar Tyrone Power a Jake Barnes e Ava Gardner à Lady Brett), Paris é uma festa (exceto por alguns comentários depreciativos sobre F. Scott Fitzgerald) e os contos As Neves do Kilimanjaro (um texto reflexivo que faz o leitor repassar a vida a limpo), Lá no Michigan (forte!) Elefantes Como Colinas Brancas (ótimo exemplo do estilo de escrita dele) e Um lugar limpo e bem iluminado (bonito e melancólico).

Hemingway Adventure, de Michael Palin

Uma das melhores e mais divertidas aventuras seguindo as pegadas de Hemingway pelo mundo foi feita por Michael Palin e registrada em seu livro Hemingway Adventure (2003, Phoenix).

O escritor de narrativas de viagens e membro do grupo cômico britânico Monty Python visitou praticamente todos os lugares onde Hemingway esteve: Estados Unidos, Itália, França, Espanha, África e Cuba.

Recomendo muito a sua leitura para os fãs de Hemingway.


👀Confira também: Nas pegadas de Ernest Hemingway por Milão.

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